Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012
Um hobby pouco óbvio
Sempre que me
perguntavam o que fazia nos meus tempos livres, eu tinha medo de responder.
Tinha medo porque o meu hobby era um
tanto ou quanto singular, peculiar, diferente. Era um passatempo que poucas
pessoas têm e, como tal, eu tinha receio de ser olhado de lado e ostracizado. O
meu hobby era pensar.
Não sei ao certo
quando comecei com este passatempo. Desde que me lembro que o fazia
naturalmente. Recordo-me que já em criança o praticava sem saber muito bem o
que era. Pensava sobre Legos, sobre lápis-de-cor e sobre aquele apêndice de
rigidez bipolar que se encontrava entre as minhas pernas. Depois entrei para a
escola e comecei a desenvolvê-lo de uma forma mais séria. Dava por mim a pensar
se a interpretação que o professor fez sobre determinado poema estava mesmo
correcta ou se, por outro lado, o poeta estava apenas bêbedo quando o escreveu
e, no dia seguinte, nem ele próprio conseguia interpretar o sentido da obra.
Foi nesta altura
que comecei a partilhar os frutos do meu hobby
com outras pessoas. E se por um lado os meus pais e colegas até o aceitavam, já
os professores não o encaravam muito bem. Quando me davam uma reprimenda, eu
costumava dizer “pensava que podia ser isto”,
ao que os professores replicavam com “você não está aqui para pensar, está aqui
para aprender”. Foi então que percebi que este passatempo não era bem visto por
todos. No entanto, continuei a fazê-lo à socapa. Pensava sobre as pessoas, sobre
a sociedade, sobre a espiritualidade.
Mas depois
entrei na faculdade e cedo compreendi que era incompatível com o método de
ensino utilizado: aceitar tudo o que nós dizemos e decorá-lo de forma
automática sem nunca o pôr em causa. Estava perante um dilema: ou concluia o
curso universitário ou pensava. Angustiado, expus essa preocupação ao director
do curso, que me disse: “você pode pensar à vontade, desde que seja o mesmo que
todos os outros pensam”. Aceitei o conselho pois reconhecia valor ao director,
uma vez que ele pertencia a um partido político. Durante os quatro anos
seguintes deixei de pensar e consegui concluir o curso com excelentes notas.
Depois da
faculdade ainda tentei voltar a praticar o meu hobby mas, entretanto, arranjei emprego num banco e fazê-lo
prejudicava a minha capacidade de trabalho. Confesso que, por vezes, ainda fico
a pensar um bocadinho na informação que leio nos jornais e vejo na televisão. Sei
que não é bem a mesma coisa, uma vez que não se trata de pensamento próprio,
mas faço-o apenas para matar saudades. Felizmente, hoje em dia tenho outro
passatempo que me ajuda a esquecer o primeiro e que posso praticar sem medo,
uma vez que a maioria das pessoas também o tem. Agora, o meu hobby é comprar.
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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012
Dar um tempo
Todos nós, homens, já ouvimos nalguma altura da nossa
vida a expressão “dar um tempo”, seja proferida pela nossa namorada, pela nossa
esposa ou até pela nossa mão direita. Esta expressão é utilizada quando a
relação precisa de uma pausa, um interregno para ponderar e repensar aspectos
fulcrais do estado do relacionamento. Ou seja, é uma expressão típica de
mulher.
Creio estar correcto ao afirmar que, em toda a história
da Humanidade, nunca nenhum homem que estivesse a cumprir a chamada “pena de
relação” tenha proferido alguma vez essa frase. A única forma disso poder
acontecer, seria se conhecêssemos trigémeas norueguesas de proeminentes curvas
que, na noite anterior, nos tivessem segredado que eram ninfomaníacas e que
iriam voltar para a Noruega dentro de dois dias.
Mas nós sabemos que quando as mulheres dizem isto é
porque há qualquer coisa que não está bem. Sabemos que querem uma pausa para
avaliar o nosso desempenho relacional com base na pontuação de 472 escalas
diferentes e que, depois, logo nos darão o resultado através de um extenso
relatório verbal. O que não sabemos é o período temporal a que se refere “um
tempo”, pois isso nunca nos é dito, o que se torna bastante desagradável. É a
mesma coisa que quando o nosso patrão nos diz “depois preciso de falar consigo”
de manhã e só fala connosco no final do dia. O assunto até pode ser
insignificante, mas é o que basta para nos deixar o dia inteiro a pensar em
todos os erros que fizémos nos últimos meses.
Para os homens, a relação ou está on ou está off. Não há cá
meio-termo. E nós precisamos de ter isto definido com exactidão o quanto antes,
para saber se podemos começar a resolver os assuntos pendentes da nossa lista de
“gajas óptimas que eu quero papar quando já não estiver nesta relação”. É que se
trata de uma lista de tarefas que já tem algum tempo – mais ou menos desde o
início da relação - e que, como tal, tem de ser despachada o quanto antes.
É que, no fundo, quando uma mulher diz que acha melhor
“dar um tempo”, o que ela está a fazer é a pedir uma licença sem vencimento por
tempo indeterminado. E nós homens, enquanto entidade empregadora, até podemos
conceder essa licença, mas depois não se admirem se, na vossa ausência,
andarmos a entrevistar potenciais candidatas para preencher a vossa vaga. Calma,
não será para sempre, é apenas trabalho temporário. Depois nós logo dizemos
quando termina.
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
Dormir é um desperdício?
Vou directo ao assunto: não suporto pessoas
que dizem que “dormir é um desperdício de tempo”. Normalmente, quem o faz é
aquela gentalha pretensiosa que diz isto para passar a imagem de que tem uma vida muito
atarefada, transmitindo a ideia de que o tempo em que estão acordados é tão
importante para a evolução do mundo, que precisam de mais tempo ainda. Para
mim, a única imagem que passa, é a de que são pessoas que não se sabem
organizar o suficiente para realizar todas as suas tarefas num horário normal.
E depois esta gentalha vem sempre com
o “sabes que o Marcelo Rebelo de Sousa
só dorme três horas por noite?”. Não, não sei nem me interessa. Tenho mais em
que pensar. Aliás, se estes pedantes não perdessem tanto tempo a pensar em
coisas como o período de sono do Marcelo – isso sim, um desperdício – se calhar
tinham mais tempo para resolver os seus problemas num horário normal.
Mas vamos assumir que o Marcelo dorme
três horas por noite. E então? Isso quer dizer que dormir apenas três horas pode
tranformar-nos numa pessoa inteligente? Não me parece. É que se assim fosse,
por esta altura, já algum dos pastilhados que eu conheço tinha descoberto a cura
para o cancro.
E se dormir é um desperdício, então
porque é que o fazem? Sempre que eu considero alguma actividade um desperdício
de tempo, simplesmente não a faço. Porque é que não tentam ficar sem dormir?
Força. Tentem não dormir durante uma semana ou duas e depois venham falar
comigo. Isto se ainda me reconhecerem e não acharem que eu sou um panda magenta,
que vem dum universo paralelo, e que está a tentar recolher todas as sementes
de sésamo para transformar a Terra num carrossel gigante.
Claro que tudo isto também me irrita
devido à função especial que o sono desempenha na minha vida: o sono é a minha
religião. E para além de ser uma daquelas em que temos mesmo de ser praticantes
– ou então não funciona – tem também algumas vantagens em relação às outras
religiões.
Primeiro, não é preciso decorar textos
idiotas, usar tapetes ou extrair pele do pénis. Nada disso. Basta dormir, que é
algo que todos nós sabemos fazer muito bem desde bébés. Depois, para
praticarmos esta religião, não precisamos de nos dirigir a uma casinha com
pinturas e decorações específicas. Podemos praticá-la em qualquer lado: na
cama, no chão, no banco de um comboio ou mesmo na sanita (sim, na sanita, quem
já apanhou uma bebedeira a sério sabe do que eu estou a falar).
Mas a maior vantagem desta religião
talvez seja o facto de que, enquanto uma pessoa a está a praticar, ser
impossível para ela roubar, mentir, manipular, distorcer, ocultar ou enganar.
Pois tudo isto são actividades que só conseguimos realizar quando estamos
acordados. Por isso, da próxima vez que alguém me disser que “dormir é um
desperdício de tempo”, vou assumir que essa pessoa é um traste e dar-lhe com um
ferro na cabeça, só para ajudar a melhorar o mundo. Mesmo que corra mal e eu
não a mate, pelo menos meto-a a dormir.
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