Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Um hobby pouco óbvio



Sempre que me perguntavam o que fazia nos meus tempos livres, eu tinha medo de responder. Tinha medo porque o meu hobby era um tanto ou quanto singular, peculiar, diferente. Era um passatempo que poucas pessoas têm e, como tal, eu tinha receio de ser olhado de lado e ostracizado. O meu hobby era pensar.

Não sei ao certo quando comecei com este passatempo. Desde que me lembro que o fazia naturalmente. Recordo-me que já em criança o praticava sem saber muito bem o que era. Pensava sobre Legos, sobre lápis-de-cor e sobre aquele apêndice de rigidez bipolar que se encontrava entre as minhas pernas. Depois entrei para a escola e comecei a desenvolvê-lo de uma forma mais séria. Dava por mim a pensar se a interpretação que o professor fez sobre determinado poema estava mesmo correcta ou se, por outro lado, o poeta estava apenas bêbedo quando o escreveu e, no dia seguinte, nem ele próprio conseguia interpretar o sentido da obra.

Foi nesta altura que comecei a partilhar os frutos do meu hobby com outras pessoas. E se por um lado os meus pais e colegas até o aceitavam, já os professores não o encaravam muito bem. Quando me davam uma reprimenda, eu costumava dizer  “pensava que podia ser isto”, ao que os professores replicavam com “você não está aqui para pensar, está aqui para aprender”. Foi então que percebi que este passatempo não era bem visto por todos. No entanto, continuei a fazê-lo à socapa. Pensava sobre as pessoas, sobre a sociedade, sobre a espiritualidade.

Mas depois entrei na faculdade e cedo compreendi que era incompatível com o método de ensino utilizado: aceitar tudo o que nós dizemos e decorá-lo de forma automática sem nunca o pôr em causa. Estava perante um dilema: ou concluia o curso universitário ou pensava. Angustiado, expus essa preocupação ao director do curso, que me disse: “você pode pensar à vontade, desde que seja o mesmo que todos os outros pensam”. Aceitei o conselho pois reconhecia valor ao director, uma vez que ele pertencia a um partido político. Durante os quatro anos seguintes deixei de pensar e consegui concluir o curso com excelentes notas.

Depois da faculdade ainda tentei voltar a praticar o meu hobby mas, entretanto, arranjei emprego num banco e fazê-lo prejudicava a minha capacidade de trabalho. Confesso que, por vezes, ainda fico a pensar um bocadinho na informação que leio nos jornais e vejo na televisão. Sei que não é bem a mesma coisa, uma vez que não se trata de pensamento próprio, mas faço-o apenas para matar saudades. Felizmente, hoje em dia tenho outro passatempo que me ajuda a esquecer o primeiro e que posso praticar sem medo, uma vez que a maioria das pessoas também o tem. Agora, o meu hobby é comprar.

Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Dar um tempo




Todos nós, homens, já ouvimos nalguma altura da nossa vida a expressão “dar um tempo”, seja proferida pela nossa namorada, pela nossa esposa ou até pela nossa mão direita. Esta expressão é utilizada quando a relação precisa de uma pausa, um interregno para ponderar e repensar aspectos fulcrais do estado do relacionamento. Ou seja, é uma expressão típica de mulher.

Creio estar correcto ao afirmar que, em toda a história da Humanidade, nunca nenhum homem que estivesse a cumprir a chamada “pena de relação” tenha proferido alguma vez essa frase. A única forma disso poder acontecer, seria se conhecêssemos trigémeas norueguesas de proeminentes curvas que, na noite anterior, nos tivessem segredado que eram ninfomaníacas e que iriam voltar para a Noruega dentro de dois dias.

Mas nós sabemos que quando as mulheres dizem isto é porque há qualquer coisa que não está bem. Sabemos que querem uma pausa para avaliar o nosso desempenho relacional com base na pontuação de 472 escalas diferentes e que, depois, logo nos darão o resultado através de um extenso relatório verbal. O que não sabemos é o período temporal a que se refere “um tempo”, pois isso nunca nos é dito, o que se torna bastante desagradável. É a mesma coisa que quando o nosso patrão nos diz “depois preciso de falar consigo” de manhã e só fala connosco no final do dia. O assunto até pode ser insignificante, mas é o que basta para nos deixar o dia inteiro a pensar em todos os erros que fizémos nos últimos meses.

Para os homens, a relação ou está on ou está off. Não há cá meio-termo. E nós precisamos de ter isto definido com exactidão o quanto antes, para saber se podemos começar a resolver os assuntos pendentes da nossa lista de “gajas óptimas que eu quero papar quando já não estiver nesta relação”. É que se trata de uma lista de tarefas que já tem algum tempo – mais ou menos desde o início da relação - e que, como tal, tem de ser despachada o quanto antes.

É que, no fundo, quando uma mulher diz que acha melhor “dar um tempo”, o que ela está a fazer é a pedir uma licença sem vencimento por tempo indeterminado. E nós homens, enquanto entidade empregadora, até podemos conceder essa licença, mas depois não se admirem se, na vossa ausência, andarmos a entrevistar potenciais candidatas para preencher a vossa vaga. Calma, não será para sempre, é apenas trabalho temporário. Depois nós logo dizemos quando termina.

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Dormir é um desperdício?


Vou directo ao assunto: não suporto pessoas que dizem que “dormir é um desperdício de tempo”. Normalmente, quem o faz é aquela gentalha pretensiosa que diz isto para  passar a imagem de que tem uma vida muito atarefada, transmitindo a ideia de que o tempo em que estão acordados é tão importante para a evolução do mundo, que precisam de mais tempo ainda. Para mim, a única imagem que passa, é a de que são pessoas que não se sabem organizar o suficiente para realizar todas as suas tarefas num horário normal.

E depois esta gentalha vem sempre com o  “sabes que o Marcelo Rebelo de Sousa só dorme três horas por noite?”. Não, não sei nem me interessa. Tenho mais em que pensar. Aliás, se estes pedantes não perdessem tanto tempo a pensar em coisas como o período de sono do Marcelo – isso sim, um desperdício – se calhar tinham mais tempo para resolver os seus problemas num horário normal. 

Mas vamos assumir que o Marcelo dorme três horas por noite. E então? Isso quer dizer que dormir apenas três horas pode tranformar-nos numa pessoa inteligente? Não me parece. É que se assim fosse, por esta altura, já algum dos pastilhados que eu conheço tinha descoberto a cura para o cancro.

E se dormir é um desperdício, então porque é que o fazem? Sempre que eu considero alguma actividade um desperdício de tempo, simplesmente não a faço. Porque é que não tentam ficar sem dormir? Força. Tentem não dormir durante uma semana ou duas e depois venham falar comigo. Isto se ainda me reconhecerem e não acharem que eu sou um panda magenta, que vem dum universo paralelo, e que está a tentar recolher todas as sementes de sésamo para transformar a Terra num carrossel gigante.

Claro que tudo isto também me irrita devido à função especial que o sono desempenha na minha vida: o sono é a minha religião. E para além de ser uma daquelas em que temos mesmo de ser praticantes – ou então não funciona – tem também algumas vantagens em relação às outras religiões. 

Primeiro, não é preciso decorar textos idiotas, usar tapetes ou extrair pele do pénis. Nada disso. Basta dormir, que é algo que todos nós sabemos fazer muito bem desde bébés. Depois, para praticarmos esta religião, não precisamos de nos dirigir a uma casinha com pinturas e decorações específicas. Podemos praticá-la em qualquer lado: na cama, no chão, no banco de um comboio ou mesmo na sanita (sim, na sanita, quem já apanhou uma bebedeira a sério sabe do que eu estou a falar).

Mas a maior vantagem desta religião talvez seja o facto de que, enquanto uma pessoa a está a praticar, ser impossível para ela roubar, mentir, manipular, distorcer, ocultar ou enganar. Pois tudo isto são actividades que só conseguimos realizar quando estamos acordados. Por isso, da próxima vez que alguém me disser que “dormir é um desperdício de tempo”, vou assumir que essa pessoa é um traste e dar-lhe com um ferro na cabeça, só para ajudar a melhorar o mundo. Mesmo que corra mal e eu não a mate, pelo menos meto-a a dormir.