Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Atenção: Burla



É sempre importante estarmos atentos aos esquemas perpetrados pelos criminosos. Se muitas das burlas clássicas são do conhecimento de todos – como os esquemas de pirâmide, os e-mails a pedir dados bancários ou o sistema financeiro mundial – não é compreensível que ninguém aborde uma das burlas mais antigas da área da restauração e que continua a acontecer hoje em dia: o entrecosto.

Eis como funciona: uma pessoa entra no restaurante para tomar uma refeição, o empregado traz-lhe a ementa, a pessoa selecciona na secção “Carne” um prato denominado de “Entrecosto” – cuja dose ronda os dez euros – e o empregado traz-lhe um prato cheio de ossos, com um farripas de carne à volta. Quando questionados sobre onde está a carne, os empregados resguardam-se no argumento “o prato de entrecosto é sempre assim”. Infelizmente, este argumento tem validade legal, pois devido à incompetência dos nossos legisladores não existe qualquer punição para este elaborado esquema.

Porque vamos lá ver uma coisa: quando eu peço um prato de carne cuja dose custa dez euros, eu espero que me venha um naco de chicha gigante que permita satisfazer a minha gula. Não quero pagar para andar a roer um sem fim de pequenos ossos porque, apesar de até ter algumas semelhanças, eu não sou um cão. Aliás, se fosse um cão até seria mais fácil comer entrecosto. Porque como ser humano que usa utensílios para comer – manias minhas – se não quiser passar fome, tenho que estar a separar minuciosamente a carne de cada um dos minúsculos ossos. Ora todo esse processo é complexo e demora bastante tempo. Ou seja, em vez de estar a pagar para disfrutar de uma belo prato de carne, estou a pagar para realizar uma cirurgia às costelas de um porco.

Eu cá não caio mais nesta burla. Sempre que quiser comer carne, peço um bife tenro e suculento. E para aqueles que dizem “a carne do entrecosto é mais gostosa do que a de um bife”, deixem-me clarificar a minha posição: estes tipos de carne são como tipos de mulher. O entrecosto é uma mulher anorética que é uma fera sexual, mas que dá um trabalhão para levar para a cama e, quando finalmente conseguimos, apenas nos permite mandar uma rapidinha que não nos deixa satisfeitos. Por outro lado, o bife é aquela mulher com curvas, fartos seios e coxas roliças, que não é nada de outro mundo na cama mas que está sempre ali à nossa disposição, com a qual podemos fazer sexo durante bastante tempo e que nos deixa sempre satisfeitos.

Finalmente, para o leitor que está a pensar “se não gostas de entrecosto, não o peças”, eu acho que isso é assumir aquela postura de “eu estou safo”, ignorando todas as outras pessoas que serão vítimas desta burla. Muito à semelhança do que se passa com o sistema financeiro mundial.

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

Manifesto Pró-Flato



Vivemos em pleno século XXI, uma altura em que já despenalizámos o aborto e aceitámos o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas em que continuamos ignorar uma prática comum apenas por ser desconfortável para a maioria: o flato. Nos tempos que correm, o flato é ainda encarado como um fenómeno que afecta apenas os estratos sociais mais baixos, as pessoas com menos higiene e educação. Obviamente, esta ideia está longe da realidade. Todas as pessoas emitem gases: novos e velhos, ricos e pobres, homens e mulheres. Sim, mulheres. Sei que esta afirmação é polémica, mas um estudo científico recente veio provar que as mulheres também dão traques. Para além do mais, ao longo da história, podem ser encontradas referências que revelam que muitas figuras ilustres eram adeptas da bufa, figuras como Isaac Newton, Albert Einstein ou Pinto da Costa.

Ora se as ventosidades fazem parte de um processo fisiológico natural, então porque continuamos a fingir que não existem? E porque é que sempre que soltamos um flato num local público, as pessoas nos olham de lado e nos tratam como autênticos criminosos? Chega de negarmos a realidade. Basta de reprovação social cega e infundada. É preciso descriminalizar o flato!

Calma leitor, não defendo a descriminalização de todos os traques, só dos leves. Sim, porque eu também não quero andar na rua e ser vítima de uma daquelas minas olfactivas capazes de afugentar animais selvagens. Eu defendo apenas que possamos soltar, ocasionalmente, aquele pequeno pum que se encontra enclausurado e manifesta vontade de sair à rua, sem que sejamos linchados em praça pública.

Até porque a discriminalização do flato traria inúmeras vantagens. Em primeiro lugar, se o peido fosse uma prática socialmente aceite, reduzir-se-ia o número de pessoas que apenas passam gases para provocarem os outros e se afirmarem. Muito provavelmente, cessariam alguns rituais decadentes perpetuados hoje em dia, como as difundidas competições de traques, o célebre “puxa o meu dedo” ou mesmo a créme de la créme das invenções escatológicas: o infame “bafo do dragão”.

Outra vantagem seria a expansão da mente. A acumulação de ventosidades dentro de nós não só é contra-natura, como exige um elevado grau de esforço, controlo e concentração. Por outro lado, quando libertamos um traque, existe uma sensação de alívio supremo, quase um nirvana, que liberta a nossa mente para pensarmos nos problemas verdadeiramente importantes da vida. Sem a presença de ventosidades a consumir os nossos recursos cognitivos, arrisco a afirmar que poderíamos, finalmente, conseguir a paz mundial.

Por tudo isto, peço que se junte a mim e a tantos outros nesta batalha. Ajude-nos a criar um mundo onde as pessoas não sejam julgadas pela sua flatulência. Como fazê-lo? Simples. Junte-se a nós na marcha de sensibilização que está a ser organizada contra esta injustiça social. Apesar da marcha ainda não ter data nem local definidos, se o leitor quiser participar, poderá encontrar-nos seguindo o distinto “cheiro da liberdade.”


NOTA: A descriminalização do flato defendida neste manifesto não inclui os flatos vaginais, pois para mim isso é como arrotar enquanto se está a comer: nojento e uma falta de educação.

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

É o meu bébé



Muitos dos meus amigos têm revelado, ultimamente, uma certa tendência para me apresentarem aos seus bébés. Não consigo imaginar o que os levou a pensar que eu me iria relacionar bem com eles, mas queria pedir que parassem. Por favor, cessem as vossas tentativas de me forçar a travar amizade com este tipo de pessoas. Tal nunca acontecerá porque os bébés têm traços de personalidade, atitudes e comportamentos que eu considero detestáveis em qualquer ser humano.

Primeiro, nunca me agradaram pessoas que querem ser sempre o centro das atenções. Ainda para mais a todo o custo. Os bébés são aquele tipo de pessoa que se não está a sala toda a olhar para eles se põem a guinchar e a gritar ou, em último caso, chegam mesmo a defecar apenas e só para chamarem a atenção para si mesmos.

Em segundo lugar, não consigo suportar a atitude de ter de ser tudo à maneira deles. Se lhes apetece comer não podem esperar pela hora da refeição, tem de ser naquele preciso momento. É toda essa atitude do “não me interessa se estás a dormir ou se estás no aeroporto, eu quero extrair leite de uma glândula mamária imediatamente” que considero insuportável, pois é reveladora de uma falta de educação atroz. Claramente, trata-se de gente que não nasceu em berço de ouro.

Depois, convinhamos, os bébés vestem-se mal: ou usam aqueles fatos-macaco que já vêm incorporados com pézinhos ou então envergam calças arregaçadas, à pescador, enquanto deambulam descalços por todo o lado. Isto já para não falar de mais uma prova cabal da sua falta de educação que é o facto de, muitas vezes, tendo visitas em casa, andarem a passear-se trajando apenas uma tanga branca ou, em caso extremos, pavonearem-se todos nús em frente dos convidados.

Outra característica que considero intolerável é o facto dos bébés não se mexerem para nada. Passam a vida refastelados à espera que algum dos servis lhes satisfaça as suas necessidades. Os bébés são talvez o grupo de pessoas mais sedentário que existe, o que aliás se nota pelos seus braços, mãos, pernas e pés balofos. Trata-se de uma gentalha tão preguiçosa que nem para falar se esforçam, preferindo apenas balbuciar sons sem nexo. Nesse campo, os bébés são como os espanhóis quando estão em Portugal: não estão interessados em falar a nossa língua, nós é que temos de fazer o esforço para os entender.

Finalmente, existe mais um motivo pelo qual não estou interessado em me relacionar com bébés: é que, claramente, todos eles sofrem de uma acentuada instabilidade emocional. Num momento estão a rir-se às gargalhadas e, no segundo a seguir, já estão a chorar como uma carpideira bem remunerada. Ora apesar de considerar os bébés pessoas mal-educadas e preguiçosas, que querem ser o centro das atenções e que tudo seja à sua maneira, consigo ter o bom senso de reconhecer que a instabilidade emocional é um problema psiquiátrico e já tentei ajudar muitos deles. Foi precisamente essa a gota de água no meu relacionamento com esta gente, porque até essa tentativa de ajuda me trouxe chatices, uma vez que segundo a sentença do tribunal, é “cruel e desumano dar fármacos estabilizadores do humor a um bébé”.